03 • Delírios de uma manhã de verão

São já três semanas a viver no fuso horário da Costa Oeste. Os clientes Americanos estão sempre em good standing e gostam de compliance da parte dos fornecedores mas isto está a dar cabo dos meus planos para o mercado interno e não tenho qualquer perspectiva de vida social…

10:30PM em Seattle, 6h30 em Lisboa.

O telemóvel toca. Dá-me uma câimbra no dedo e atendo sem olhar para o número. – “Estou, chuchu...”. Desligo o telemóvel sem olhar para o nome.
Dirijo-me à casa de banho e o telefone toca mais três vezes. Porque raio fui atender à primeira. Toca uma quarta vez... Atendo.

– “Estou! Moisés, sou eu!...”. Reconheço aquela voz sofrida até debaixo de água. Respondo com aparente frieza mas no fundo a coisa transmite-me um estranho sentimento de conforto.

– “Isto são horas para se ligar a alguém, Manela?”.

– “Preciso de falar contigo agora”.

O meu cérebro reage, estimulado pelas vinte horas de exercício ininterrupto, calculando cinquenta terminações diferentes para aquela frase que vão deste a morte de alguém até à mais rocambolesca fantasia erótica. Comprometo-me a encontrar-me dentro de trinta minutos na Mexicana para um pequeno almoço à antiga.
Corro para a banheira e tomo um duche. Saio da banheira e agarro a toalha mas questiono-me se ensaboei os pés. Volto a entrar.
Abro a torneira do chuveiro e fixo o olhar naquele desenho foleiro do azulejo.

Nunca tinha reparado que, por detrás do baixo relevo do cogumelo há uma paisagem campestre com vaquinhas a pastar.
Estou tonto e com uma ligeira moinha na nuca. Questiono-me porque raio terão colocado azulejos de cozinha na casa de banho e imagino-me a correr por entre os montes de feno que “pópam” à minha passagem.

Tropeço, caio de costas e fico a mirar o céu. Chovem bátegas na minha tromba mas eu mantenho o sorriso parvo até que começo a ficar enregelado. O gás da botija acabou. Passaram trinta minutos... Foda-se!

Agarro no sabonete com a mão esquerda e levanto o pé direito. Tenho uma sensação de dejá-vu e saio da banheira.

Já não me lembrava do aspecto da Praça de Londres às sete da manhã. É bonita mas não o suficiente para me dar vontade de acordar todos os dias a esta hora. A uns duzentos metros, junto à esplanada vazia, vislumbro um vulto. De pé, braços encadeados nas alças da mala, desenha um sorriso despropositadamente grande quando me vê. Dou-lhe um abraço.

– “Então?”, pergunto. Responde-me com um quase imperceptível aceno da cabeça e sentamo-nos. Acenamos a um empregado. - “Por favor!”.

– “Só abrimos às 7h30. Tem de aguardar”.

Manela aproveita a pausa para começar a falar. Conta-me o último ano a passo acelerado. Como andou perdida depois da nossa separação. As três semanas que passou sem sair da cama, sobrevivendo a garrafas de Vitalis e bolachas de água e sal e os cinco quilos a menos por causa disso.

Como uma amiga a tirou da fossa com as idas ao ginásio para promover a serotonina. O regime alimentar à base de couves, bagas de Goji e cereais pré-históricos. Os incontáveis retiros no Alentejo, o Yoga, as idas ao Celeiro. A homeopatia, as regressões, os gurus, o terceiro olho do Lobsang Rampa, o Nirvana e as carradas de dinheiro que deitou ao lixo.

Fala na amiga outra vez e numa startup tecnológica que começaram juntas. Um site e uma app servem de suporte à venda de mistela de superalimentos e caca de morcego que tem, obviamente, propriedades regeneradoras.

– “Essa amiga?…”. Questiono, curioso.

– “A Joana! Conheci-a na agência. Foi quem me valeu na altura. Alugámos um t2 no Príncipe Real e vivemos lá as duas. Caro p’a caraças. Tens de lá ir jantar”.

A dor na nuca aperta. O meu coração está a mil e o cérebro entra em delírio. Visualizo uma “Joana” imaginária. Loira ou morena? Morena, de olhos… verdes. Não pode ser branca. Pele morena. Talvez… Caboverdiana. Sim, morena. O par perfeito…

Manela e Joana recebem-me à porta de vestido de alças às florzinhas a condizer. A luz amarelada do final de um dia de verão satura as cores e aumenta o contraste da imagem. Corta a cena: Plano americano, passam-me um copo e bebemos vinho à espera que o jantar fique pronto. Corta a cena: Plano geral e estamos sentados à mesa. Durante a conversa, os olhares entrecruzam-se, talvez seja a curiosidade. Close-up nos lábios carnudos e molhados de Joana. Um plano mais apertado mostra um daqueles sorrisos que arrancam qualquer gajo de um coma profundo. Apercebo-me que estou ébrio e sinto as bochechas quentes. Manela toca-me na perna e…

– “Moisés! Não estás a ouvir nada!”.

Estou na esplanada com o serviço mais merdoso da zona e estou a sonhar uma situação erótica com a minha ex e uma amiga imaginária! Que é que se passa hoje comigo? Deve ser falta de comida. Levanto o braço para pedir o pequeno almoço.

– “Se faz favor. Já podemos pedir?”.

– “Não sou eu. É o meu colega”...

"Os lábios carnudos e molhados de Joana arrancam qualquer gajo de um coma profundo"


Nuno Maldonado Tuna © 2018

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