01 • Pataniscas no Chafariz de Dentro

Conheci a Manela há dois anos, num team-building lá do atelier. Durante uma corrida de sacos, caímos um por cima do outro e os seus melosos olhos azuis convenceram-me que aquela seria a mulher da minha vida. Mal sabia eu o que para aí vinha…
A loucura do primeiro ano rapidamente deu lugar à ditadura da queca à Sexta-feira, o cinema à Quarta e o jantar com os paizinhos ao Domingo. Em um ano já tudo nela me irritava e me causava ansiedade.
A nossa vida é mais seca que o arroz de pato da tasca lá da rua e apesar de termos a sorte de não viver nos arrabaldes de Lisboa, os planos dela de “vida a dois” acabaram por afastar toda a gente.
Ficámos resumidos aos buddies de Sábado. Um casal de vizinhos lá do prédio tão interessantes como as outras folhas do calendário.
Pormenores à parte, hoje é dia de aniversário. Ou “entreaniversário”, como ela gosta de dizer… hoje comemora-se a trigésima nona quinzena de namoro. Só o sei porque me deixou um post it no espelho da casa de banho.
—  “Marquei mesa naquele restaurante das pataniscas que tu tanto gostas”. Disse ela com aquela voz fininha, pseudo-fofinha. Apetece-me arrancar as unhas dos dedos à dentada!... —  “Está uma noite espectacular para jantarmos na esplanada”. Mal sabia ela que, depois desta noite, as nossas vidas iriam mudar radicalmente.
Chegámos ao restaurante cedo e, como de costume, ficámos na mesma mesa onde fizemos as primeiras juras de amor. Pediu uma garrafa de Casa de Santar tinto e duas meias-doses de pataniscas com arroz de feijão. Tal e qual como “naquela” noite.
A primeira meia-hora é preenchida pelo silêncio típico de quem já esgotou todos os assuntos. Tirando um ou outro olhar cruzado por acidente, não existe nenhuma evidência de cumplicidade. Somos dois estranhos que dividem uma cama diariamente. O que é estranho é que nada disto a incomoda! Muito pelo contrário. O sorriso de total satisfação que todos os dias lhe preenche a cara, diz isso mesmo.
—  “És feliz?”, pergunto eu, de talheres na mão e olhar fixo na sua direcção.
—  “Porque perguntas isso? Sim. Sou feliz ao teu lado. Só nós os dois…”. Replica de olhos semicerrados, bochechas ruborizadas e lábios ainda umedecidos pelo último gole de vinho.
Senti um momentâneo arrepio na espinha… Seguiu-se uns trinta minutos de monólogo em modo alterado, entremeado com a memória do enfarte.
Expliquei-lhe que não se pode empurrar coisas inevitáveis para daqui seis meses como no centro de saúde. Que comer comida sem sal não me faz bem… à alma. E que um bobó de quando em vez não a transforma automaticamente numa puta.
E que, por isso tudo e muito mais, nos tínhamos transformado em duas couves.
Sim. Eu sei... Confesso que nunca fui muito bom com metáforas, analogias e comparações. Tento reforçar a ideia.
—  “O que eu quero dizer é que já não temos assunto, esgotámos todos os temas, eu não sei e nem quero saber do que te interessa e tu não mostras interesse nenhum naquilo que eu gosto. Acomodámo-nos de tal maneira que parecemos dois velhos de setenta anos que já perderam o gosto por tudo. Se eu quisesse só companhia, comprava um cão.”.
Pronto. Sou uma besta. Agora é que estraguei tudo... Não devia ter falado em cão. Agora vai dizer que a estou a comparar com um animal.
—  “Estás a comparar-me com um animal? Os cães não te fazem o jantar!!!”. Os olhos raiados de sangue brilham, anunciando uma catadupa de lágrimas.
—  “Estás a ser uma besta. Não percebo porque estás a dizer essas coisas! Que é que eu fiz para me estares a tratar dessa maneira?”. As lágrimas começam a escorrer e o entaramelar de voz faz rodar três ou quatro cabeças na nossa direcção. Apercebo-me que talvez não tenha sido o melhor local para tratar do assunto.
—  “És um grande filho da p…”.
Faço-lhe sinal para parar. Podes tirar a Manela de Rio do Mouro mas nunca tirarás Rio do Mouro da Manela…
Balbucio duas ou três patacoadas para ganhar tempo e peço a conta.
A viagem de carro parece uma eternidade. Faço o caminho sempre a olhar para a estrada mas tenho a perfeita noção de que está virada para mim, de olhar fixo, incrédula com as palavras que lhe dirigi.
Chegámos a casa.
Três lances de escada depois, digo-lhe: —  “Vou dormir no sofá. Falamos amanhã”.


“Tenho a perfeita noção de que está virada para mim, de olhar fixo, incrédula com as palavras que lhe dirigi”



Nuno Maldonado Tuna © 2014

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