02 • Reviver o passado em Alcântara

Já lá vai um mês desde que a Manela voltou para casa dos pais.

Antes disso tivemos uma conversa seríssima sobre sonhos e expectativas. Falámos da monotonia, da “vidinha” e de tantos outros lugares-comuns de que se falam nestas situações. Acordámos afastar-nos por uns tempos para reavaliar as prioridades e outras chuchadeiras do género.

Mais tarde ou mais cedo a coisa passa e ela volta. Sei disso porque, mesmo com toda a espectacularidade com que fez a mala para sair de casa, a escova de dentes continua no copo por cima do lavatório e os quarenta pares de sapatos ainda ocupam mais de setenta porcento do espaço disponível no guarda-roupa do meu quarto.

De qualquer forma, prevejo umas três ou quatro semanas de férias para ganhar novo fôlego.

Aproveito para não lavar a loiça todos os dias e fazer uns jantares com a malta até às tantas. Noitadas a trocar histórias de engates, descrições pormenorizadas de cenas de porrada de outros tempos e, a terminar a noite, planear projectos infalíveis e altamente rentáveis que só o álcool, dois maços de tabaco e a parvoíce das quatro da manhã possibilitam.

Para já, chego a Alcântara para uma noitada com mais quatro tipos com quem não estou há séculos. Avista-se uma longa noite de copos, a acabar sabe-se lá em que buraco.

Está um dos Agostos mais quentes dos últimos dez anos e estou à seca no Largo das Fontainhas, junto à paragem do Quarenta. De Mini na mão, tento tudo para me manter fresco. O suor escorre-me pelas costas. Preciso de um ar condicionado e os gajos não aparecem...

–“Moisés. Seu animal! Já não te vejo há, pelo menos…" – olha-me de alto abaixo – "… dez quilos!”. Diz o Jonas em voz alta e tom de gozo, agitando os braços acima da cabeça.

Jonas é um dos meus amigos mais antigos. Conhecemo-nos no liceu e a nossa amizade prolongou-se, salteada no tempo, até hoje. Partilhámos quase tudo. Inclusivamente duas namoradas e uma pizza com três dias, numas férias na Praia das Maçãs.
–“Falei com o Pilas. Estava a estacionar. Esperamos um bocado por ele”.

Ao fundo, virando a esquina de quem vem do Largo do Calvário, uma DT com a panela de escape rota chama a atenção dos transeuntes, enquanto o condutor tenta manobrá-la na nossa direcção . O “filme” parece-me familiar...

–“’Tava a ver que na conseguia cá chegar. Puze-a andar de propósito p’ra este encontro!”. Dá-nos um abraço apertado – “'Tão bonzitos?”. A malta já estava habituada às violentas cacetadas que o Português sofria na boca do Zé. Por muito que o corrigíssemos ele acabava sempre por voltar à primeira forma. Os pais tinham uma tabacaria em Lagos e emigraram para Lisboa com o negócio atrás ainda ele era um puto. Acabou, na altura, por cimentar a nossa amizade à força do fornecimento initerrupto de cigarros.

Largo a mão do Zé no exacto segundo em que o “Pilas” chega. É o único dos cinco com um percurso académico respeitável. Cedo conseguiu uma bolsa de investigação científica e hoje é um conceituado biólogo com duas patentes registadas. Deixou crescer um portentoso bigode. Diz que é para impor o respeito. Seguiram-se dez minutos de piadas sobre bigodes, partes do corpo humano e patentes.

–“Falta um! O Jotapê?”, relembra o Jonas.

–“Vamos andando para o bar. Mandamos-lhe mensagem e ele vai lá ter. Preciso de qualquer coisa fresca.”, comento.

Seguimos pela rua até darmos com uma pequena zona industrial reconvertida em antro pseudo-cultural.

–“Ca cena é esta?!? É só pitas de calção-cueca e gajos insuflados de t-shirt preta. Isto ir dar merda!”, exclama o Zé, um bocado desconfortável.

–“Calma, Zé. Só viemos beber um copo e esperar pelo Jotapê. Ninguém se vai meter com tipos da nossa idade.”...

Entrámos na discoteca com melhor aspecto que era possível, pedimos imperiais e abancámos na primeira mesa livre que encontrámos.

Não tinham passado cinco minutos e... não sei se foi um olhar, um pensamento qualquer proferido em voz alta ou só o facto de estarmos completamente deslocados...

A calçada escorregavam mais do que o habitual para Agosto. Só bebemos meia imperial, portanto talvez fosse por estarmos a fugir sobre pedras acabadas de lavar. A verdade é que sofremos mais dos trambolhões da fuga do que das palmadas que levámos daquela chusma de brutos energúmenos.

–“Ê t'avisei, ê avisei!”, repetia nervosamente o Zé enquanto puxava pela gola encharcada do Pilas (a eventual analogia não foi intencional).

O tamanho desmesurado das bestas jogava a nosso favor, conferindo-nos a vantagem suficiente para os despistarmos numa das estreitas transversais que ladeiam as instalações da antiga FIL.

Encostados a um muro, entre taquicardias e acessos compulsivos de tosse, olhamos uns para os outros a rir nervosamente. – "Já não nos acontecia uma destas há muito tempo?", disse Jonas.

– "Olha! Tenho aqui uma mocada na tola que sangra um niquinho", reparou o Zé, ainda meio inebriado pela adrenalina.

– "Xi. Estamos todos fodidos!", exclamou o Pilas, com espanto. – "Deixei o meu casaco pelo caminho, o Moisés está todo arranhado e o Jonas... Jonas. Onde é que estão as tuas calças, pá?!". De pé, em cima do muro virado para a Avenida Marginal, Jonas expunha o seu melhor par de shorts azul bebé.

O lenho na cabeça do Zé debitava golfadas de sangue e cada frase que dizia era um delirio diferente. Era melhor apanhar um táxi para o Hospital e avisar o habitualmente atrasado, Jotapê.

– “’Tou, João Pedro?! Sim. Sou eu, o Moisés. É melhor combinarmos noutro sítio...Sim, sim. Estava tudo cheio... Ofegante? Não. Deve ser da ligação. Encontramo-nos nas urgências de São José...”.

Para além do Zé – que repetia psicoticamente que tinha avisado – mais ninguém abriu a boca até sermos atendidos nas urgências. Primeiro porque não havia nada a dizer. Mesmo que houvesse, os inchaços que começavam a despontar com o arrefecimento, tornavam imperceptíveis quaisquer palavras com mais de duas sílabas, éfes ou érres.

Depois de sermos obrigados a prestar um custoso e demorado depoimento a dois polícias info-excluídos, o Zé quebrou o silêncio: – "Méne. Eu sei que na sou pai dela mas tiv' qu'lhe dizer qu'aqueles calções irem fazer qu'os gajos todos olharem p'ra ela. O boi ao lado até 'tava a achar piada. Na gostou muito foi qu'eu lhe desse uma palmada na peidola...".

– "Porra, Zé!!!" Exclamámos em uníssono.

- "Próximo fim-de-semana é comer em casa aqui do Zé, caneco."


“A calçada escorregava mais do que o habitual para Agosto”
Nuno Maldonado Tuna © 2014

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