Já lá vai um mês desde que a Manela voltou para casa dos pais.
Antes
disso tivemos uma conversa seríssima sobre sonhos e expectativas.
Falámos da monotonia, da “vidinha” e de tantos outros lugares-comuns de
que se falam nestas situações. Acordámos afastar-nos por uns tempos para
reavaliar as prioridades e outras chuchadeiras do género.
Mais
tarde ou mais cedo a coisa passa e ela volta. Sei disso porque, mesmo
com toda a espectacularidade com que fez a mala para sair de casa, a
escova de dentes continua no copo por cima do lavatório e os quarenta
pares de sapatos ainda ocupam mais de setenta porcento do espaço
disponível no guarda-roupa do meu quarto.
De qualquer forma, prevejo umas três ou quatro semanas de férias para ganhar novo fôlego.
Aproveito
para não lavar a loiça todos os dias e fazer uns jantares com a malta
até às tantas. Noitadas a trocar histórias de engates, descrições
pormenorizadas de cenas de porrada de outros tempos e, a terminar a
noite, planear projectos infalíveis e altamente rentáveis que só o
álcool, dois maços de tabaco e a parvoíce das quatro da manhã
possibilitam.
Para já, chego a Alcântara para uma
noitada com mais quatro tipos com quem não estou há séculos. Avista-se
uma longa noite de copos, a acabar sabe-se lá em que buraco.
Está
um dos Agostos mais quentes dos últimos dez anos e estou à seca no
Largo das Fontainhas, junto à paragem do Quarenta. De Mini na mão, tento
tudo para me manter fresco. O suor escorre-me pelas costas. Preciso de
um ar condicionado e os gajos não aparecem...
–“Moisés.
Seu animal! Já não te vejo há, pelo menos…" – olha-me de alto abaixo –
"… dez quilos!”. Diz o Jonas em voz alta e tom de gozo, agitando os
braços acima da cabeça.
Jonas é um dos meus amigos
mais antigos. Conhecemo-nos no liceu e a nossa amizade prolongou-se,
salteada no tempo, até hoje. Partilhámos quase tudo. Inclusivamente duas
namoradas e uma pizza com três dias, numas férias na Praia das Maçãs.
–“Falei com o Pilas. Estava a estacionar. Esperamos um bocado por ele”.
Ao
fundo, virando a esquina de quem vem do Largo do Calvário, uma DT com a
panela de escape rota chama a atenção dos transeuntes, enquanto o
condutor tenta manobrá-la na nossa direcção . O “filme” parece-me
familiar...
–“’Tava a ver que na conseguia cá chegar. Puze-a andar de propósito p’ra este encontro!”.
Dá-nos um abraço apertado – “'Tão bonzitos?”. A malta já estava
habituada às violentas cacetadas que o Português sofria na boca do Zé.
Por muito que o corrigíssemos ele acabava sempre por voltar à primeira
forma. Os pais tinham uma tabacaria em Lagos e emigraram para Lisboa com
o negócio atrás ainda ele era um puto. Acabou, na altura, por cimentar a
nossa amizade à força do fornecimento initerrupto de cigarros.
Largo
a mão do Zé no exacto segundo em que o “Pilas” chega. É o único dos
cinco com um percurso académico respeitável. Cedo conseguiu uma bolsa de
investigação científica e hoje é um conceituado biólogo com duas
patentes registadas. Deixou crescer um portentoso bigode. Diz que é para
impor o respeito. Seguiram-se dez minutos de piadas sobre bigodes,
partes do corpo humano e patentes.
–“Falta um! O Jotapê?”, relembra o Jonas.
–“Vamos andando para o bar. Mandamos-lhe mensagem e ele vai lá ter. Preciso de qualquer coisa fresca.”, comento.
Seguimos pela rua até darmos com uma pequena zona industrial reconvertida em antro pseudo-cultural.
–“Ca
cena é esta?!? É só pitas de calção-cueca e gajos insuflados de t-shirt
preta. Isto ir dar merda!”, exclama o Zé, um bocado desconfortável.
–“Calma, Zé. Só viemos beber um copo e esperar pelo Jotapê. Ninguém se vai meter com tipos da nossa idade.”...
Entrámos na discoteca com melhor aspecto que era possível, pedimos imperiais e abancámos na primeira mesa livre que encontrámos.
Não
tinham passado cinco minutos e... não sei se foi um olhar, um
pensamento qualquer proferido em voz alta ou só o facto de estarmos
completamente deslocados...
A calçada escorregavam mais
do que o habitual para Agosto. Só bebemos meia imperial, portanto
talvez fosse por estarmos a fugir sobre pedras acabadas de lavar. A
verdade é que sofremos mais dos trambolhões da fuga do que das palmadas
que levámos daquela chusma de brutos energúmenos.
–“Ê
t'avisei, ê avisei!”, repetia nervosamente o Zé enquanto puxava pela
gola encharcada do Pilas (a eventual analogia não foi intencional).
O
tamanho desmesurado das bestas jogava a nosso favor, conferindo-nos a
vantagem suficiente para os despistarmos numa das estreitas transversais
que ladeiam as instalações da antiga FIL.
Encostados a um
muro, entre taquicardias e acessos compulsivos de tosse, olhamos uns
para os outros a rir nervosamente. – "Já não nos acontecia uma destas há
muito tempo?", disse Jonas.
– "Olha! Tenho aqui uma mocada na tola que sangra um niquinho", reparou o Zé, ainda meio inebriado pela adrenalina.
– "Xi. Estamos todos fodidos!", exclamou o Pilas, com espanto. – "Deixei o meu casaco pelo caminho, o Moisés está todo arranhado e o Jonas... Jonas. Onde é que estão as tuas calças, pá?!". De pé, em cima do muro virado para a Avenida Marginal, Jonas expunha o seu melhor par de shorts azul bebé.
O
lenho na cabeça do Zé debitava golfadas de sangue e cada frase que
dizia era um delirio diferente. Era melhor apanhar um táxi para o
Hospital e avisar o habitualmente atrasado, Jotapê.
–
“’Tou, João Pedro?! Sim. Sou eu, o Moisés. É melhor combinarmos noutro
sítio...Sim, sim. Estava tudo cheio... Ofegante? Não. Deve ser da
ligação. Encontramo-nos nas urgências de São José...”.
Para
além do Zé – que repetia psicoticamente que tinha avisado – mais
ninguém abriu a boca até sermos atendidos nas urgências. Primeiro porque
não havia nada a dizer. Mesmo que houvesse, os inchaços que começavam a
despontar com o arrefecimento, tornavam imperceptíveis quaisquer
palavras com mais de duas sílabas, éfes ou érres.
Depois de sermos obrigados a prestar um custoso e demorado depoimento a dois polícias info-excluídos, o Zé quebrou o silêncio: –
"Méne. Eu sei que na sou pai dela mas tiv' qu'lhe dizer qu'aqueles
calções irem fazer qu'os gajos todos olharem p'ra ela. O boi ao lado até
'tava a achar piada. Na gostou muito foi qu'eu lhe desse uma palmada na
peidola...".
– "Porra, Zé!!!" Exclamámos em uníssono.
- "Próximo fim-de-semana é comer em casa aqui do Zé, caneco."
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| “A calçada escorregava mais do que o habitual para Agosto” |
Nuno Maldonado Tuna © 2014

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