00 • Três Lances de Escada

Prólogo
— "Três lances de escada... três míseros lances de escada...". penso eu enquanto olho para cima, meio cego pela luz que entra pela clarabóia do vão.
— “Anda lá, meu! Isto não é o Cristo-Rei, caraças...”. Berra o Zé.
O meu nome é Moisés, sou desenhador e tenho trinta e cinco anos. Estou de volta a casa depois de ter sido atacado à traição por um enfarte agudo do miocárdio.
Quinze anos de directas em frente ao computador, maço e meio de Marlboro por dia e merendas mistas com Compal de pêra, às duas da manhã, tinham que dar merda.
Agora nem consigo dar dois passos sem começar a arfar como um São Bernardo. Disse o médico que me safei por uma unha negra.
Relembro, por instantes, os bons velhos tempos de natação, em que fazer vinte piscinas era tão fácil como tocar a uma campainha de porta. Agora, olho para o patamar do terceiro esquerdo como se fosse atravessar o Tejo a nado.
O meu irmão Zé aguarda, enfadado, à porta do apartamento, grita do alto do patamar —  “Ouve… Quando chegares cá acima acorda-me!”.
Tenho tanta vontade de subir isto como de dar umas braçadas dentro de água.
— “São só três lances... três lances de escada. Vamos lá...”. Subo o primeiro degrau e ao fim de quinze minutos estou à porta do apartamento. Respiro fundo e preparo-me para percorrer os últimos três ou quatro metros de corredor, até ao sofá da sala. Entre grunhidos de descompressão e uma ou duas piadas que envolvem falta de ar, lá me refastelo.
— “Tens aqui o comando da televisão, bolachinhas de água e sal e uma garrafa de água. A "nitro" para o caso de te sentires mal, ponho-ta aqui no bolso das calças. Parece um hotel, isto!” Diz em tom jocoso, numa tentativa desajeitada - mas bem intencionada - de me animar.
—  “Tens o telefone carregado? Liga-me se precisares de alguma coisa que eu venho a correr”. Dá-me um apertão no ombro e sai de rompante.
Num segundo, o silêncio toma conta do pequeno apartamento. E largando um sonoro suspiro digo para mim mesmo: “’Dass! Até que enfim, descanso!”.

“’Dass! Até que enfim, descanso!”
Nuno Maldonado Tuna © 2014

Comentários